O QUE É NEUROCIÊNCIA COGNITIVA? Entenda o Cérebro Pensante
- Marcela Emilia Silva do Valle Pereira Ma Emilia
- Jul 22
- 6 min read

🧠 O que é Neurociência Cognitiva?
Você já parou para pensar como conseguimos prestar atenção, lembrar de algo ou tomar uma decisão? Como o cérebro transforma estímulos em pensamentos? Estamos vivendo em uma era em que entender como pensamos, lembramos, tomamos decisòes e percebemos o mundo à nossa volta é mais importante do que nunca. E a resposta está na neurociência cognitiva.
Essa área da ciência, um dos campos mais fascinantes (e complexos) da neurociência moderna, estuda a base neural dos processos mentais — ou seja, como o nosso cérebro permite que a mente funcione – unindo a ciência do cérebro e a ciência da mente.
Se você já ouviu falar em “ativação do córtex pré-frontal durante o raciocínio” ou “plasticidade cerebral ligada à memória”, então você já esbarrou com temas da neurociência cognitiva. E neste post, vamos explorar o que exatamente ela estuda, como surgiu e por que é tão importante. Vamos desvendar os mecanismos neurais por trás das funções mentais que dão origem à cognição.

🔬 1. O que a Neurociência Cognitiva estuda?
A neurociência cognitiva é uma área interdisciplinar que combina neurociência, psicologia cognitiva, linguística, filosofia da mente, inteligência artificial e outras ciências para investigar como os processos mentais emergem do funcionamento cerebral. O foco principal é identificar os correlatos neurais da cognição — ou seja, as estruturas e circuitos cerebrais envolvidos em funções como:
Atenção: processo cognitivo que permite selecionar em o que concentrar ignorando todo o resto
Percepção: como interpretamos e entendemos os estímulos e informações sensoriais.
Memória: processo mental que adquire, forma, conserva e evoca as informações.
Linguagem: como compreendemos e produzimos fala e escrita. A tarefa de comunicar uma idea em uma linguagem compreensível para se transmitir o significado.
Tomada de decisão: como avaliamos opções e escolhemos caminhos. Habilidade em avaliar diferentes alternativas e escolher aquela que é a melhor opção.
Consciência: o que nos torna conscientes dos nossos pensamentos e experiências. É o “cérebro sabendo que ele existe” (Antônio Damásio), surge da interação das emoções, corpo e mente, envolvendo também o sentir.
🧠 Enquanto a psicologia cognitiva estuda o comportamento e os processos mentais a partir de experimentos e teorias mentais, a neurociência cognitiva acrescenta um ingrediente poderoso: o funcionamento neural por trás desses processos.
E ela busca responder perguntas como:
🧩 O que acontece no cérebro quando tomamos uma decisão?
📚 Como o cérebro forma e recupera memórias?
🗣️ Como compreendemos e produzimos linguagem?
📜 2. De onde surgiu essa área?
As raízes da área vêm dos estudos de lesões cerebrais no século XIX (como o famoso caso de Phineas Gage), passando por avanços da psicologia cognitiva nos anos 1950, até a revolução da neuroimagem nas últimas décadas.
A busca por entender a mente humana é antiga, mas foi só com a "revolução cognitiva" dos anos 1950-60 que nasceu a psicologia cognitiva moderna.
O termo neurociência cognitiva foi cunhado por George Miller e Michael Gazzaniga em 1970, durante um encontro interdisciplinar que uniu psicólogos, neurocientistas, linguistas e filósofos surgindo como campo formal nos anos 1970-80, especialmente após a publicação do livro Cognitive Neuroscience: The Biology of the Mind por Michael Gazzaniga e colegas. Então, a neurociência cognitiva é relativamente recente. Ela nasceu da fusão entre:
A psicologia cognitiva, que estuda os processos mentais;
A neurociência, que estuda o sistema nervoso;
E o avanço das técnicas de neuroimagem (como fMRI e EEG), que permitiram ver o cérebro em ação.
Desde os anos 1990, com o avanço das técnicas de neuroimagem, o campo explodiu em descobertas e aplicações.
📌 Hoje, a neurociência cognitiva é considerada uma das áreas centrais para entender o ser humano de forma integrada — do cérebro à experiência.

🧪 3. Como são feitos os estudos nessa área?
Para entender o cérebro em ação, a neurociência cognitiva utiliza técnicas como:
🔍 fMRI (ressonância magnética funcional) – mostra quais áreas do cérebro estão ativas durante uma tarefa. Mede a atividade cerebral ao detectar alterações no fluxo sanguíneo.
⚡ EEG (eletroencefalograma) – capta a atividade elétrica cerebral em tempo real💡 Tarefas cognitivas – os participantes realizam testes enquanto suas respostas cerebrais são registradas
🧠 Estudos com lesões cerebrais – ajudam a entender o papel de determinadas regiões. Avaliam como danos em áreas específicas afetam o comportamento.
📚 TMS (estimulação magnética transcraniana): manipula a atividade de regiões cerebrais específicas.
🧩 Modelagem computacional e IA: simulam o funcionamento mental e testam hipóteses de forma precisa.
Essas técnicas permitem mapear o cérebro “pensando” em tempo real, permitem observar o cérebro em ação — literalmente ver quais regiões se ativam quando você lê uma frase, resolve um problema ou tenta se lembrar de um número de telefone.

🧭 4. Para que serve a Neurociência Cognitiva?
O conhecimento gerado por essa área é aplicado em diversas frentes. Compreender como o cérebro constrói a mente tem implicações práticas em diversas áreas, como:
Educação: desenvolvimento de métodos que respeitam o funcionamento do cérebro (aprendizagem, atenção, desenvolvimento cognitivo)
Saúde mental: diagnóstico e tratamento de transtornos como depressão, TDAH e Alzheimer
Tecnologia: criação de interfaces cérebro-máquina
Justiça: análise do comportamento sob influência de funções cognitivas (neurolaw, responsabilidade e livre arbítrio)
Neuroética: reflexão sobre os limites do uso do conhecimento sobre o cérebro (limites da manipulação ou aprimoramento cognitivo)
Ou seja: a neurociência cognitiva nos ajuda a entender melhor quem somos, como pensamos e como podemos viver melhor.
E, atualmente, a área investiga temas como:
Estados alterados de consciência (meditação, sono, psicodélicos)
Emoções e empatia
Cognição social e moral
Tomada de decisões em contextos complexos
Interface cérebro-máquina e neurotecnologia

🧠 5. O que já descobrimos?
Graças à neurociência cognitiva, hoje sabemos, por exemplo, que:
A memória de trabalho depende do córtex pré-frontal
O hipocampo é essencial para formar novas memórias
O hemisfério esquerdo costuma ser mais ativo no processamento da linguagem
A atenção envolve uma rede distribuída entre córtex parietal, frontal e o tálamo
Emoções e razão não são separadas — o sistema límbico e o córtex pré-frontal trabalham juntos
Essas descobertas mudaram como entendemos não só o funcionamento cerebral, mas também a educação, a saúde mental, o comportamento social e até as decisões econômicas.
📚 6. Fontes e leituras recomendadas
Se você quer se aprofundar mais, aqui vão algumas referências:
· Ashcraft, M. (2006). Cognition
· Gazzaniga, M. S. (2009). The Cognitive Neurosciences
· Gazzaniga, M. S., Ivry, R., & Mangun, G. R. (2018). Cognitive Neuroscience: The Biology of the Mind (5th ed.). W. W. Norton & Company.
· Miller, G. A. (2003). The cognitive revolution: a historical perspective. Trends in Cognitive Sciences, 7(3), 141–144.
· Pessoa, L. (2022). The Entangled Brain: How Perception, Cognition, and Emotion Are Woven Together. MIT Press.
· Purves, D. et al. (2018). Principles of Cognitive Neuroscience
· Ward, J. (2020). The Student’s Guide to Cognitive Neuroscience
Alguns nomes e centros que impulsionam a área:
Michael Gazzaniga – pioneiro nos estudos de lateralização cerebral.
Stanislas Dehaene – destaque em linguagem, leitura e consciência.
Tania Singer – referência em empatia e neurociência social.
Anil Seth – foco em consciência e percepção.
Instituições: Harvard, MIT, Max Planck Institute, Universidade de São Paulo (USP), Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).
Leitura recomendada:
Cognitive Neuroscience: The Biology of the Mind – Gazzaniga, Ivry & Mangun
The Feeling of Life Itself – Christof Koch
TED Talk: "The quest to understand consciousness" – Anil Seth
TED Talk: "How your brain constructs reality" – Lisa Feldman Barrett

🧩 Conclusão
Entender como o cérebro gera a mente é uma das fronteiras mais fascinantes da ciência. A neurociência cognitiva não apenas amplia o conhecimento sobre quem somos, mas também tem impacto direto em políticas públicas, práticas educacionais, saúde mental e inovação tecnológica. É uma ciência com implicações éticas, sociais e humanas profundas.
A neurociência cognitiva é o elo entre mente e cérebro. Ela nos ajuda a entender quem somos, como pensamos e como sentimos — e por isso é uma das áreas mais fascinantes da ciência atual.


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