DESINFORMAÇÃO E CRIATIVIDADE: Como Acontece a Fabricação de Mentiras
- Marcela Emilia Silva do Valle Pereira Ma Emilia
- Nov 21
- 7 min read

🧠 Desinformação e Criatividade
Vivemos em uma era em que a mentira deixou de ser acidente — virou arquitetura. E como toda arquitetura sofisticada, ela precisa de projeto, técnica e, sobretudo, criatividade.
Antes, uma “fofoca” se espalhava pela boca de um vizinho ou por manchetes sensacionalistas de jornal. Hoje, a mentira vem em alta resolução emocional, ajustada para o cérebro como se fosse uma roupa sob medida.
Deepfakes reconstroem rostos, algoritmos simulam emoções, narrativas são refinadas em loops infinitos até soarem perfeitas demais para serem questionadas.
E o ponto-chave que a neurociência vem revelando:
👉 Criar uma fake news não é um ato aleatório — é um processo cognitivo complexo.
Exige imaginação, previsão mental, leitura emocional do outro e domínio de vieses cognitivos.
Em outras palavras:
✨ Criar desinformação exige criatividade.
Mas não qualquer criatividade — aquela voltada para manipular, não para expandir.
O mesmo cérebro que produz arte, inovação e ciência também é capaz de criar mentiras convincentes.
Em ambientes hiperconectados de 2025, essa “criatividade destrutiva” tem impacto direto na política, na economia, no tecido social e — talvez mais perigosamente — na forma como percebemos a realidade.
A neurociência da criatividade mal direcionada demonstra que:
mentes criativas são também mais capazes de inventar desinformação;
a manipulação ativa circuitos de recompensa semelhantes aos envolvidos na criação artística;
o cérebro humano é uma máquina biológica perfeita para acreditar em histórias fabricadas;
a combinação — criatividade + emoção + algoritmos — se tornou a tempestade perfeita da desinformação contemporânea.
Normalmente, quando falamos em criatividade, pensamos em música, escrita, ciência, desenho.
Mas a neurociência nunca limitou criatividade à arte.
Criatividade é a capacidade de gerar ideias originais que fazem sentido dentro de um contexto (Runco & Jaeger, 2012).
E isso inclui:
inventar histórias,
construir narrativas plausíveis,
prever reações alheias,
manipular emoções por meio de linguagem.
Ou seja: perfeito para fabricar desinformação.
🧩 O circuito neural da criatividade é o mesmo usado para invenção de mentiras complexas

Pesquisas de neuroimagem mostram que a criatividade envolve a interação entre três grandes redes cerebrais:
Default Mode Network (DMN) — imaginação, visualização mental, construção de narrativas;
Redes Executivas (PFC dorsolateral) — planejamento, sequenciamento, lógica, escolha estratégica;
Rede Salience (ínsula + cíngulo anterior) — avaliação emocional e pertinência contextual.
Estudos como Ganis et al. (2003) e Abe (2011) mostram que:
mentiras sofisticadas ativam fortemente a DMN, pois exigem imaginar cenários inexistentes;
o córtex pré-frontal atua para manter a coerência e suprimir a verdade real;
o cíngulo anterior monitora erros, inconsistências e impacto emocional.
Ou seja:
👉 Mentir é um ato criativo.
E quanto mais criativa a pessoa, maior a capacidade de produzir histórias emocionalmente convincentes.
Mas a criatividade não é apenas uma força que pode ser mal utilizada;ela também pode ser canalizada para combater a desinformação — em campanhas educativas, produções artísticas, iniciativas de literacia crítica.
🎭 O “mentiroso criativo” é, neurocognitivamente, um roteirista

Para fabricar uma mentira convincente, o cérebro precisa:
prever como outra pessoa vai reagir (teoria da mente),
avaliar quais emoções serão acionadas,
construir uma narrativa que soe familiar, mas não óbvia,
conectar causa e consequência de forma plausível,
ajustar a história se houver resistência.
Esse processo é quase idêntico ao usado por escritores, cineastas e publicitários.
A diferença?
👉 O objetivo não é inspirar — é manipular.
Exemplos reais do impacto da desinformação
COVID-19 e vacinas — notícias falsas geraram hesitação vacinal e surtos evitáveis.
Eleições — bots e narrativas artificiais moldaram percepções e influenciaram democracias.
Estudos que conectam criatividade e engano
Gao & Maurer (2010): pensamento divergente → histórias falsas mais convincentes.
Deline & Haruno (2017): criatividade verbal → menor sensibilidade moral + maior flexibilidade cognitiva.
Verschuere et al. (2018): quanto maior a criatividade narrativa, mais difícil detectar a mentira.
💡 Criatividade é ferramenta neutra — o uso é que define sua ética.
🧬 O cérebro de quem cria fake news: dopamina, poder e moral “desligada”

Se a criatividade fornece a matéria-prima, a neuroquímica fornece o combustível.
Criar fake news de forma estratégica não é apenas um ato cognitivo — é emocional e recompensador.
A neurociência já mapeou exatamente como isso funciona.
🎭 Mentir deliberadamente tem uma assinatura neural própria.
Estudos de Joshua Greene (Harvard), Abe (2011) e Bandura (2016) mostram:
🔹 1. Menor ativação do córtex cingulado anterior (ACC)
O ACC é responsável por:
• detectar conflito moral,
• inibir comportamentos antiéticos,
• gerar desconforto ao mentir
Quando alguém mente deliberadamente, esse circuito reduz sua atividade.
👉 O cérebro desativa o freio moral para permitir a criação fluida da mentira.
🔹 2. Aumento da atividade dopaminérgica no sistema mesolímbico
Abe & Greene (2014) mostraram que enganar com sucesso ativa:
• núcleo accumbens,
• área tegmentar ventral,
• córtex orbitofrontal.
Essas regiões são as mesmas envolvidas em:
• recompensas sociais,
• jogos de azar,
• sexo,
• dependência leve.
👉 Manipular crenças alheias gera um “alto” neuroquímico.
🔹 3. Criatividade + moral desligada = ambiente perfeito para inventar mentiras
O cérebro criativo já funciona com:
• DMN hiperativa,
• flexibilidade cognitiva elevada,
• facilidade em construir narrativas,
• intuição social apurada.
Quando isso se junta a:
• dopamina (prazer),
• ACC reduzido (empatia baixa),
• motivação social (status, influência, poder),
surge o:
👉 “criador de realidades alternativas”.
Um produtor de fake news não é desinformado. Ele é habilidoso.
📢 O cérebro de quem compartilha fake news: você não é manipulador — você é vulnerável

👉 Compartilhar fake news NÃO te torna manipulador.
Os circuitos são completamente diferentes.
O cérebro de quem compartilha se parece muito mais com o cérebro de alguém que reage emocionalmente — não de quem planeja manipulação.
📌 Quem compartilha ativa três mecanismos distintos:
1. Dopamina da validação social
Você compartilha → alguém reage → dopamina.Reforço automático.
2. Sistema límbico em alerta
Fake news ativam:
• amígdala (medo, raiva),
• hipotálamo (alerta fisiológico),
• noradrenalina (urgência).
O corpo reage antes da razão.
3. Córtex pré-frontal “desligado” temporariamente
Em estado emocional:
• o PFC reduz atividade,
• a checagem crítica diminui,
• a pessoa compartilha porque acredita — não para manipular.
🛡️ Como se proteger da desinformação (aplicação prática)
1. Verifique as fontes
Pergunte:Quem disse isso? Por quê? De onde vem?
2. Eduque-se sobre desinformação
Workshops, alfabetização midiática, cursos curtos.
3. Promova pensamento crítico na prática
Discuta, pergunte, converse, confronte ideias — sem confrontar pessoas.
🌱 Conclusão: o cérebro como antídoto

A desinformação não cresce porque as pessoas são ingênuas.
Ela cresce porque entende a biologia humana.
E o mais fascinante — e perigoso — é que quem sustenta esse ciclo é a mesma força que
move a arte e a inovação:
✨ a criatividade.
O cérebro que fabrica uma obra musical é o mesmo que fabrica uma mentira convincente.
Mas há uma virada poderosa:
👉 o mesmo cérebro que cai é o cérebro que pode aprender.👉 o mesmo cérebro que reage é o que pode refletir.👉 o mesmo cérebro que acredita é o que pode questionar.
A neurociência não expõe apenas como somos vulneráveis — ela revela como podemos nos proteger.
E no fim, não é sobre desconfiar de tudo —é sobre perceber com consciência, sentir com maturidade e pensar com intenção.
✨ O futuro não pertence à mentira criativa.
Pertence ao cérebro que sabe reconhecê-la — e decide não ceder a ela.
📚 Referências
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